sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O HOMEM DE AÇO


Não é novidade que Hollywood passa por um momento onde a criatividade necessária para produzir blockbusters (preferencialmente em três dimensões que rendem números mais gordos de bilheterias) é cada vez mais escassa. São raros os argumentos verdadeiramente bons e engajadores, fazendo com que a indústria de cinema canalize todos os seus esforços e verbas em filmes baseados em histórias em quadrinhos, que por natureza já carregam consigo uma legião prévia de fãs, ou em remakes, prequels, sequels e reeboots de obras famosas e idolatradas, que, em teoria, são fonte certa de lucro.

Assim como os novos Jornadas nas Estrelas, Homem Aranha e Batman, O Homem de Aço (Man of Steel) segue a filosofia de recontar e ignorar (ao menos em partes) tudo o que já foi estabelecido sobre o super herói mais famoso de nossa história recente.

Fruto da união de Zack Snyder (300 e Watchmen), cineasta ciberpunk viciado em histórias em quadrinhos e Christopher Nolan (nova trilogia Batman), produtor e atual messias do universo DC nos cinemas, O Homem de Aço mostra um super homem reformulado, mais agressivo, cheio de conflitos e másculo, arrancando suspiros das mocinhas em cenas sem camiseta, ou em closes no apertado collant. 

Como já apontado por muitos, a direção de Snyder é visivelmente contida, resumindo-se a prestar homenagens indiretas ao primeiro longa de 1978 (Superman - O Filme, de Richard Donner, com o inesquecível Christopher Reeve), sobrando apenas espaço para os “zoom in – zoom out”, já consagrados na filmografia do diretor. Seus fracassos nos dois últimos filmes A Lenda dos Guardiões e Sucker Punch - Mundo Surreal certamente fizeram pesar a mão de Nolan, que juntamente de David Goyer (roteirista e parceiro de longa data) exagerou no núcleo “Planeta Terra”, talvez com a preocupação de não deixar pontas soltas e criar um vínculo emocional forte entre o “alienígena de Krypton” e a famosa repórter Louis Lane, mesmo tipo de erro cometido por Kenneth Branagh em Thor (2011).

A grande mudança contextual de Louis na vida de Clark (vivido pelo praticamente desconhecido Henry Cavill), além de não agradar aos antigos fãs de quadrinhos, ou dos filmes de Reeves, fez com que se perdesse muito tempo de projeção para desenvolver a relação de ambos, desperdiçando preciosos e caros minutos que poderiam ser mais bem aplicados no desenvolvimento do protagonista.


Outra alteração significativa é que agora temos um Kal-El mais sombrio e com razões para desconfiar da humanidade, fornecendo argumento que pode, ou não, ser utilizado nos próximos filmes como motivador para aproximá-lo de nós, reles humanos. Confesso que aplaudi esta mudança, até por ser um fã de longa data do Cavaleiro das Trevas. Retratar o protagonista como um imigrante interplanetário, dominado por sensações humanas como a raiva e arrependimento, foi uma jogada de mestre. Pontos para Nolan, Goyer e também Michael Shannon, que interpretou o ótimo e insano vilão General Zod.

Em Man of Steel também vemos um roteiro com falhas que, por exemplo, não explicam a “transmissão em super wifi intergaláctico” da consciência de Jor-El de Krypton para Terra. Tecnicamente o uso de flash-back como artifício para narrar eventos passados é interessante, quando aplicado na dose certa. Intercalar uma série de cenas de ação com momentos do passado de Clark em outro ritmo, outra trilha sonora e outra paleta de cores me causou uma sensação de estranheza quanto à edição do longa. Espalhar flash-backs durante uma projeção funcionava muito bem na série Lost, porém neste filme eu preferiria ter assistido à sequencias inteiras de cenas pretéritas, a vê-las de forma fragmentada, atrapalhando o andamento da narrativa principal.

Alternando entre pequenos problemas e cenas de babar, o longa conseguiu definir uma personagem mais próxima da nossa realidade e da nossa ciência, deixando apenas a saudade da antiga e espetacular música tema criada por John Williams, preterida pelo questionável Hans Zimmer.

Aguardemos sua próxima aventura já anunciada este ano na Comic Con , que terá com o título Superman versus Batman.


Um abraço, para o alto e avente!

Texto de Eligio W. Junior