sexta-feira, 5 de abril de 2013

This Must be the Place - Aqui é o Meu Lugar


O que ocorre quando um ex-astro, por escolha própria, desaparece dos holofotes da fama para viver em um tedioso ostracismo, mas sem abrir mão do visual e “jeitão de ser” responsáveis pelas glórias do passado?

Esta é basicamente a premissa de This Must be the Place (Aqui é o Meu Lugar), filme de 2011 estrelado por Sean Penn (A Árvore da Vida e Milk – A Voz da Igualdade) e dirigido pelo italiano Paolo Sorrentino.

Sorrentino (que também escreveu o roteiro) é um grande fã do pop-rock da década de 1980 e com dinheiros em mãos, realizou o sonho de todo fã ao filmar um longa metragem cheio de referências “oitentistas”, a começar pelo nome da produção pego emprestado de uma música da banda Talking Heads. Aqui é o Meu Lugar é carregado de referências a artistas excêntricos e revolucionários como David Byrne (fundador do Heads, que também assina a trilha sonora do filme), Iggy Pop, Mick Jagger, Robert Smith (músico utilizado de espelho para a criação da personagem principal), entre outros.
  

Mas o longa vai muito além de menções a certo período da história musical humana! Com um cinema nada quadrado e Hollywoodiano, Sorrentino apresenta uma história densa e retratada de forma pouco familiar ao espectador acostumado a assistir Sean Penn no formatinho norte americano de cinema.

O protagonista e ex-vocalista da banda Cheyenne and the Fellows, vive num mundo de conto de fadas, entorpecido por uma ociosidade desesperadora. Cheyenne (que apesar de parecer uma tia velha, não tem nada a ver com aquela novela da Rede Globo) possui apenas uma rotina diária: caminhar de maneira esquisita com seu carrinho de compras pelas ruas de Dublin e no shopping mais próximo tomar café e conversar com a adolescente Mary (vivida pela realmente irlandesa Eve Hewson, filha do famosíssimo Bono Vox, U2) que tudo sabe sobre seu passado musical. Quando em casa, Cheyenne se esforça para dar alguma atenção à sua esposa Jane (Frances McDormand de Queime Depois de Ler, Transformers: O Lado Oculto da Lua) e com ela ter um vida quase normal.


A residência do protagonista é uma analogia à Terra do Nunca, pois nela habita um homem beirando os cinqüenta anos de idade, que insiste em pensar e agir como uma criança. Por tal motivo a vida “convida” Cheyenne à uma aventura pouco ortodoxa de descobrimentos e aprendizados, ao melhor estilo road movie. Este chamado ocorre quando “Cheye” é obrigado a retornar ao seu país de origem de navio (sim, pois ele também possui fobia de avião) para visitar seu moribundo pai, um sobrevivente do Holocausto nazista que dedicou uma vida à procura de seu carrasco alemão.

Como tudo na vida de Cheyenne parece ser desordenado e ilógico, ele decide continuar a odisséia de seu desconhecido pai, mesmo sabendo que entre eles não existiu amor, conhecimento e diálogo. A necessidade de motivação e desafio leva o apático artista a cair na estrada e conhecer pessoas relacionadas ao antigo algoz de seu patriarca, que lhe darão dicas sobre o paradeiro deste objeto de perseguição.

A aventura é bem amarrada e executada através dos bons e estranhos diálogos de Sorrentino, além da espetacular interpretação de Penn, que tristemente foi ignorado pelas grandes premiações do cinema (o filme concorreu apenas à Palma de Ouro em Cannes em 2011).


O abuso nos travellings (movimento de câmara que realmente se desloca no espaço, em oposição aos movimentos de panorâmica) para nos aproximar, ou nos afastar de Cheyenne é um interessante recurso utilizado no filme, acentuando ainda mais a sensação de estranheza causada por esta bela obra non-sense.

Arrisco-me a dizer que Aqui é o Meu Lugar não é um filme para todos, mesmo não sendo uma obra complicada e truncada, como muitos filmes europeus. Este é definitivamente um filme para quem aprecia o “lado torto” da arte de gênios como Tim Burton e Danny Elfman. Se você se encaixa neste tipo de expectador, não deixe de incluir Cheyenne em seu repertório pessoal!
   


Um abraço e até a próxima.

Texto de Eligio W. Junior

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