terça-feira, 16 de abril de 2013

Velvet Goldmine - O dia em que Batman dormiu com Obi Wan Kenobi !!!

 
David Bowie, Iggy Pop, Marc Bolan, Lou Reed, Suzi Quatro, Gary Glitter... Se nenhum desses nomes lhe disser algo particularmente íntimo, não leia o que vem a seguir... Fuja do filme em questão, pois ele pode danificar seu cérebro!!!
 
Falar sobre Velvet Goldmine é como contar um pouco da vida que vivi e talvez a vida de muitos de vocês que estão lendo e esperando algo além de uma crítica corriqueira.
 
Obviamente é um filme para poucos, não há como ser um telespectador curioso. Quem é amante do Glam Rock, de toda uma década de abusos, experimentalismos, androginia e liberdade, vai se deliciar com o mostrado tão explicitamente pelo diretor Todd Haynes (do perturbado Não Estou Lá). Em contrapartida, o conhecedor superficial desse estilo (e quanto estilo !!!) não vai entender nenhuma citação, nenhuma ligação, e preferirá assistir algo mais brando e insípido produzido em série por Hollywood. Afinal, mas que raios de roupas são essas???
 
Velvet é escancaradamente baseado na vida colorida, ácida e maquiada de David Bowie, transformado no filme em Brian Slade e interpretado com toda extravagância e umidade necessárias por Jonathan Rhys-Meyers (August Rush, From Paris With Love). Temos ainda Iggy Pop, que virou Curt Wild, magistralmente sem pudores vivido por Ewan McGregor (Moulin Rouge, Star Wars Prequels), Christian Bale (Império do Sol, Trilogia Batman) no papel do repórter assombrado pelo seu passado na revolução sexual e obviamente, a sempre freak/competente Toni Collette (O Casamento de Muriel, Pequena Miss Sunchine) como a esposa de Brian.
 
 
Num enredo muito bem trabalhado, onde cada nuance do mundo artístico é mostrada, a narrativa vai emendando a vida de cada personagem de forma coesa, desde a infância de quem se tornou o artista, até a vida e traumas de quem era o simples fã influenciado a extremos digamos, inevitáveis.
 
Todo destaque é claro, fica por conta da trilha sonora e figurinos, ambos recriados com maestria e detalhes onde mesmo quem não viveu ou não conheceu a fundo os costumes da época, se sente imerso na purpurina, glitter, lipstick traces (got it?) e eyeliners.
 
 
Na pré produção, David Bowie não cedeu os direitos de utilização de suas músicas, alegando que tinha o próprio projeto sobre a cena Glam dos anos 70, planejado para o futuro. Digamos que nosso querido Ziggy Stardust indiretamente nos fez um favor, pois as canções originais compostas para Velvet Goldmine são deliciosamente hipnotizantes. Não posso deixar de citar a trilha instrumental, sutilmente perfeita de Carter Burwell, que dá o toque monolítico da obra.
 
Sim, finalmente para nós, freaks, glams (os originais, não me venha com farofas...) descobrimos que Oscar Wilde, além de extra-terrestre, foi padrinho de toda cena glam européia e tinha um tremendo bom gosto para jóias!
 
Hot one a todos!
 
 
Texto de Rogério Ferrari

sexta-feira, 5 de abril de 2013

This Must be the Place - Aqui é o Meu Lugar


O que ocorre quando um ex-astro, por escolha própria, desaparece dos holofotes da fama para viver em um tedioso ostracismo, mas sem abrir mão do visual e “jeitão de ser” responsáveis pelas glórias do passado?

Esta é basicamente a premissa de This Must be the Place (Aqui é o Meu Lugar), filme de 2011 estrelado por Sean Penn (A Árvore da Vida e Milk – A Voz da Igualdade) e dirigido pelo italiano Paolo Sorrentino.

Sorrentino (que também escreveu o roteiro) é um grande fã do pop-rock da década de 1980 e com dinheiros em mãos, realizou o sonho de todo fã ao filmar um longa metragem cheio de referências “oitentistas”, a começar pelo nome da produção pego emprestado de uma música da banda Talking Heads. Aqui é o Meu Lugar é carregado de referências a artistas excêntricos e revolucionários como David Byrne (fundador do Heads, que também assina a trilha sonora do filme), Iggy Pop, Mick Jagger, Robert Smith (músico utilizado de espelho para a criação da personagem principal), entre outros.
  

Mas o longa vai muito além de menções a certo período da história musical humana! Com um cinema nada quadrado e Hollywoodiano, Sorrentino apresenta uma história densa e retratada de forma pouco familiar ao espectador acostumado a assistir Sean Penn no formatinho norte americano de cinema.

O protagonista e ex-vocalista da banda Cheyenne and the Fellows, vive num mundo de conto de fadas, entorpecido por uma ociosidade desesperadora. Cheyenne (que apesar de parecer uma tia velha, não tem nada a ver com aquela novela da Rede Globo) possui apenas uma rotina diária: caminhar de maneira esquisita com seu carrinho de compras pelas ruas de Dublin e no shopping mais próximo tomar café e conversar com a adolescente Mary (vivida pela realmente irlandesa Eve Hewson, filha do famosíssimo Bono Vox, U2) que tudo sabe sobre seu passado musical. Quando em casa, Cheyenne se esforça para dar alguma atenção à sua esposa Jane (Frances McDormand de Queime Depois de Ler, Transformers: O Lado Oculto da Lua) e com ela ter um vida quase normal.


A residência do protagonista é uma analogia à Terra do Nunca, pois nela habita um homem beirando os cinqüenta anos de idade, que insiste em pensar e agir como uma criança. Por tal motivo a vida “convida” Cheyenne à uma aventura pouco ortodoxa de descobrimentos e aprendizados, ao melhor estilo road movie. Este chamado ocorre quando “Cheye” é obrigado a retornar ao seu país de origem de navio (sim, pois ele também possui fobia de avião) para visitar seu moribundo pai, um sobrevivente do Holocausto nazista que dedicou uma vida à procura de seu carrasco alemão.

Como tudo na vida de Cheyenne parece ser desordenado e ilógico, ele decide continuar a odisséia de seu desconhecido pai, mesmo sabendo que entre eles não existiu amor, conhecimento e diálogo. A necessidade de motivação e desafio leva o apático artista a cair na estrada e conhecer pessoas relacionadas ao antigo algoz de seu patriarca, que lhe darão dicas sobre o paradeiro deste objeto de perseguição.

A aventura é bem amarrada e executada através dos bons e estranhos diálogos de Sorrentino, além da espetacular interpretação de Penn, que tristemente foi ignorado pelas grandes premiações do cinema (o filme concorreu apenas à Palma de Ouro em Cannes em 2011).


O abuso nos travellings (movimento de câmara que realmente se desloca no espaço, em oposição aos movimentos de panorâmica) para nos aproximar, ou nos afastar de Cheyenne é um interessante recurso utilizado no filme, acentuando ainda mais a sensação de estranheza causada por esta bela obra non-sense.

Arrisco-me a dizer que Aqui é o Meu Lugar não é um filme para todos, mesmo não sendo uma obra complicada e truncada, como muitos filmes europeus. Este é definitivamente um filme para quem aprecia o “lado torto” da arte de gênios como Tim Burton e Danny Elfman. Se você se encaixa neste tipo de expectador, não deixe de incluir Cheyenne em seu repertório pessoal!
   


Um abraço e até a próxima.

Texto de Eligio W. Junior