quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Crossroads: Muito Mais Que Um Filme "Cult"


Se você é daqueles que gosta de vasculhar a história em busca de injustiças, pode colocar este filme na lista. Afinal, apesar de cultuado por muitos, Crossroads (A Encruzilhada), lançado em 1986, não atingiu o auge comercial que um filme de seu gabarito mereceria.

Os méritos do filme começam com seu enredo, que é baseado numa "lenda real". Tentando explicar a contradição, o bluesman americano Robert Johnson viveu de 1911 a 1938, quando morreu em circunstâncias até hoje não esclarecidas – teria sido esfaqueado numa briga ou envenenado pelo marido revoltado de uma moçoila com quem se engraçara. Também muito se fala/falou num pacto que ele teria feito com o diabo quando ainda era adolescente. Ele teria se encontrado com o capeta numa encruzilhada numa fazenda em que se plantava milho no Mississippi e trocado sua alma pelo sucesso no blues. Com pacto ou não, o fato é que Robert se tornou uma verdadeira lenda do gênero, mesmo tendo escrito apenas 29 músicas em sua vida. E é aí que entra o mote do nosso filme: existe uma outra lenda, muito propagada, que dá conta que existe uma 30ª. música de Robert Johnson nunca encontrada até hoje.
Corte rápido.

Cá estamos na década de 80 e o roteirista John Fusco (que anos depois, mais precisamente em 2002, seria indicado ao Oscar pelo roteiro da animação O Corcel Indomável) resolveu pegar essa lenda e escrever uma história saborosíssima. Eugene Martone (interpretado com brilhantismo por Ralph Macchio, o eterno Karatê Kid) é um jovem aluno de violão clássico mas também fanático por blues – e essa dualidade gera algumas das situações mais divertidas do filme, como a audição em que ele finaliza a Marcha Turca, de Mozart, com uma frase típica de blues, para fúria de seu professor, que se revolta com a "música primitiva" (em suas palavras) que seu pupilo adora.


Em meio a essa aparente contradição, Eugene descobre que num "asilo/prisão" na cidade em que mora está recluso Willie Brown, também conhecido como Blind Dog Fulton (interpretação magistral do saudoso Joe Seneca), gaitista que tocara com Johnson nos anos 30. Ele procura o bluesman atrás da 30ª. música e como resposta recebe uma proposta: seu Eugene tirá-lo de lá e levá-lo a um determinado lugar do Mississippi, onde tinha "assuntos a resolver", mostraria a ele a tal 30ª. música.

A partir daí, os dois se envolvem numa viagem repleta de erros (mais) e acertos (menos) envolta em humor, drama, aventura e até romance – protagonizado pela lindinha Frances (Jami Gertz), que lá pelas tantas se enrosca com Eugene.

No fim das contas, Willie confessa que não existia 30ª. música coisa nenhuma e que ele queria, mesmo, era desfazer um pacto que ele próprio também tinha feito com o diabo numa encruzilhada do Mississippi. Começa aí a parte mais divertida do filme, em que Eugene acaba duelando na guitarra com Jack Butler (interpretado pelo famoso guitarrista Steve Vai) para definir o destino da dupla: se Eugene ganhar, Willie está livre de seu compromisso; se perder, sua alma também passa a pertencer ao "pé preto".

Esse enredo, por si só saboroso, é desenvolvido com maestria pelo diretor Walter Hill, que se cercou dos mínimos detalhes para que tudo parecesse o mais real possível. O início do filme, em que Robert Johnson é retratado gravando sua primeira música, chega a ser emocionante pelo realismo. Macchio, por sua vez, recebeu aulas de dois treinadores, um de blues e outro de música clássica, para aprender as músicas que interpretaria no filme. As gravações não foram feitas por ele, mas quem toca identifica que sua digitação no braço do instrumento está absolutamente correta.


E se nada do que o filme mostra tivesse valor, sua trilha sonora seria um primor por si só. Escrita, arranjada e produzida pelo grande guitarrista e compositor Ry Cooder, ela faz um apanhado geral do blues do Mississippi e, graças à participação de Steve Vai, se aproxima do heavy metal na hora em que o bicho pega e ele tem que enfrentar Eugene. Steve escreveu e gravou as guitarras do duelo e chegou a reproduzir essa música ao vivo, como aconteceu aqui mesmo no Brasil. Um detalhe interessante: a nota que desfecha o duelo é impossível de se atingir na guitarra, tanto que no filme ela é "empurrada" por um teclado. Mas nada que tire o brilho de Crossroads.


Pra terminar, o filme ainda traz algumas frases simplesmente brilhantes, daquelas que só um roteirista privilegiado conseguiria forjar. Há vários exemplos disso, todas faladas pelo sábio Willie Brown. No começo, quando ele tenta negar que se trata de Blind Dog Fulton e é interpelado por Eugene que o flagrou tocando gaita, explica: "De onde eu venho, se você não toca gaita, não come ninguém." Mais adiante, Eugene descobre que Willie não é deficiente físico e que usava uma cadeira de rodas motorizada por comodismo. Aí, ouve do mestre: "Um homem não é um homem sem um carro..." E, para finalizar, uma das falas mais especiais da história do cinema acontece quando Frances segue seu destino e abandona Eugene. Willie serve a ele uma dose de uísque vagabundo e vaticina: "O blues nada mais é do que a história de um homem bom sentindo-se mal por causa de uma mulher com quem um dia ele esteve."


Texto de Tony Monteiro

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Frank Castle: Uma saga frustrada para se tornar popular na tela grande


Baseado nos quadrinhos criados por Gerry Conway, Ross Andru e John Romita, Frank Castle apareceu pela primeira vez como coadjuvante em 1974, no gibi The Amazing Spider-Man nº 129.

Mais de uma década depois - mais especificamente em 1989 – a New Line em parceria com a Marvel Comics, que ainda não era um poderoso estúdio, convocou Dolph Lundgren para ser Castle, um ex-policial que vive nos esgotos e atua como juiz, júri e executor de criminosos da cidade, em retaliação pelos assassinatos impunes de sua esposa e filhos.


Esta versão do Justiceiro é muito diferente da filmada em 2004, sendo muito mais escura e incrivelmente mais fiel ao ritmo dos quadrinhos. Lundgren desempenhou bem o papel nesta primeira encarnação do personagem e foi muito mais imponente, com melhor presença física. Mesmo não sendo um grande ator - algo que o papel sinceramente não requisitava - ele desenvolveu seu Frank Castle de forma mais sombria - lembrando mais a versão Bruce Wayne da trilogia atual de Christopher Nolan – do que a atuação eficiente, mas nada fiel de Thomas Jane.

O fator que mais desagradou os fãs na época, além da falta de um vilão dos quadrinhos, foi a caveira não ter aparecido em seu colete ou camiseta. De qualquer forma, o filme se tornou uma das adaptações de HQS mais Cult e foi até melhor sucedida que a versão seguinte.

Já em 2004, a Marvel Studios dava seus primeiro passos para se tornar a força imponente que é hoje e seguindo a trilha de Demolidor de Mark Steven Johnson (com Ben Affleck e Jennifer Garner) e Homem- Aranha de Sam Raimi (com Tobey Maguire, Willem Dafoe, Kirsten Dunst e James Franco) trouxe novamente o policial Frank Castle, agora ex-militar dado como morto por criminosos, cuja família foi exterminada e após isso se torna o anti-herói conhecido como o Justiceiro.


Esta segunda versão definitivamente tinha a essência do torturado Frank, porém deixou a desejar no fator sombrio e violento mostrado antes. A atuação neste filme foi além do esperado e o trabalho de Thomas Jane foi bem recebido. John Travolta, apesar de um pouco irritante com seu vilão - que tentava ser sinistro, cruel e ao mesmo amoroso com sua família - conseguiu chamar a atenção da mídia para um filme de baixo orçamento, que se deu bem nas bilheterias do mundo todo. Um bom filme e não apenas uma adaptação de um super-herói como ventilava a crítica da época.


Quatro anos depois chega a aguardada sequência O Justiceiro: Em Zona de Guerra e a mesma novamente decepciona os fãs!

Jane abandonou o projeto por não aceitar as imposições do já gigante Marvel Studios e foi tentar viver Jonah Hex - aliás, um filme tão horroroso que sequer merece comentário. No seu lugar entrou Ray Stevenson (Roma e Thor) que persegue uma família da máfia e se vinga de todo mundo, exceto Billy Russoti o executor de crimes oficial da família italiana.


A violência "exagerada" e a encarnação inspirada pela The Punisher MAX Series - escrita por Garth Ennis - não foram bem aceitas pelo público e crítica, entretanto essa foi uma grande homenagem da jovem diretora e ex-campeã de caratê Lexi Alexander (Hooligans), ao famoso Justiceiro da The Punisher War Journal, além de também uma homenagem à versão de 1989.

Esta versão Frank Castle de Lexi beira a insanidade e isso se prova na sequência onde o “mocinho” entra em uma mansão e mata a todos com requintes de crueldade, no melhor estilo Jason ou Michael Myers, deixando a cereja do bolo – Russoti – fugir para um galpão até ser encontrado e atirado dentro de um triturador de garrafas. Russoti não morre e ali nasce o famoso vilão Retalho, ou Jigsaw no original, lembrando a origem do Coringa no Batman de Tim Burton em 1989. 


Infelizmente o filme se perde em uma salada absurda, com drama, comédia e muita falta de noção. Ainda sim ele é atualmente a melhor adaptação das três em minha opinião!


Hoje a Marvel está cogitando a realização de uma série televisiva que mostrará as aventuras do personagem mais justiceiro dos quadrinhos e caso esse projeto realmente ocorra, estaremos na torcida para que de uma vez por todas, os donos da casa de ideias retratem o Castle que todo fã há anos sonha em ver nas telas.


Um abraço e até mais!

Texto de: Alex Heilborn