sexta-feira, 13 de abril de 2012

Princesas Românticas - Da Disney a Sex and the City

A mente humana é fabulosa na arte de fragmentar e armazenar histórias, principalmente de quando éramos crianças e podíamos fantasiar. Temas envolvendo carros, explosões, super-heróis e personagens de quadrinhos fazem – até hoje - tanto sucesso com os meninos quanto contos-de-fada fazem com as meninas. Aliás, de maneira muito astuta, Hollywood captou esta mensagem e transformou em gêneros de filme. Alguns muito explícitos como “policial e aventura” e outros nem tanto como a “Comédia Romântica” e ela que vamos falar hoje.

Quando somos crianças, os filmes animados destinados ao público infantil feminino são sempre permeados de Princesas ou Fadas, criaturas doces e românticas, sempre com inocência e beleza quase que angelical. A temática trata da redenção de meninas perseguidas que, invariavelmente, são salvas por príncipes que se apaixonam por elas instantaneamente e então, são felizes para sempre. Os estúdios da Disney são precursores nessa fórmula certeira que agrada gerações desde nossas avós (sim, o primeiro longa animado "Branca de Neve e os Sete Anões" foi lançado em 1937!) e continua investindo de tempos em tempos nessas produções. Ao todo, hoje, são sete princesas: Branca de Neve, Cinderela (idem, 1950), Aurora ("A Bela Adormecida", 1959), Ariel ("A Pequena Sereia", 1989), Bela ("A Bela e a Fera", 1991), Jasmin ("Aladin", 1992) e Tiana ("A Princesa e o Sapo", 2009). Até Sininho, a eterna fadinha de "Peter Pan" ganhou em 2008 um longa só seu, assumindo o seu nome original Tinker Bell e apresentando várias outras fadinhas a criançada.

Ok, a menininha cresce, se interessa por um Troy aqui (High School Musical), mais tarde por um Edward (saga Crepúsculo) e sem perceber, mesmo que seja uma história em 10 episódios como Harry Potter, sempre torce para que a mocinha acabe bem. Ela se projeta na personagem e se transforma na heroína, sem correr grandes riscos físicos!!! Então, passada a adolescência, uma maneira de continuar sonhando acordada é assistir a um filme leve, como ares de “aconteceu comigo”, que são, de certa forma, releitura dos clássicos da Disney como uma roupagem mais atual, mas com situações tão improváveis quanto (que fazem parte do imaginário feminino).

Por pressuposto, comédias românticas não têm um roteiro muito rebuscado. Sua história é contada de forma simples e o enredo pede uma mocinha, um galã e um lenga-lenga de romance entre eles que deve ter final feliz ou algo parecido. O clima da trama deve ser leve e a música dançante, transportando o espectador para determinadas situações que são plantadas propositalmente para garantir o riso pontual, e, conseqüentemente ganhar a identificação de quem assiste. A década de 1990 ficou marcada com o grande número de produções do gênero, a começar pelo bem sucedido "Uma Linda Mulher" (Pretty Woman, 1990) onde, (quem não se lembra?) Julia Roberts interpreta uma prostituta que luta para não cair de amores pelo galante milionário Richard Gere. A cena final é uma metáfora de Rapunzel: Gere vêm ao encontro de Roberts numa limosine branca (cavalo) e sobe as escadas de incêndio do prédio onde fica o apartamento dela (escala a torre) com um bouquet de rosas vermelhas presas em seus dentes e se beijam (resgate).

Ganhando público cativo, com o passar da década o gênero acabou se dividindo em dois tipos de filme: “Romântica que vai casar” e “Solteira bem resolvida”. Caricatos ou não, a grande maioria se encaixa perfeitamente nos dois. "Enquanto você dormia" (While you where sleeping, 1995) com Sandra Bullock e "O casamento de meu melhor amigo" (My best friend wedding, 1997) elucidam bem a divisão e também foram sucesso.

Filmes de casamento usam a mesma roupagem e não conseguem fugir muito do enredo. A abordagem pode variar, protagonizando a organizadora da festa como em "O Casamento dos Meus Sonhos" (The wedding Planner, 2001), a madrinha no ótimo "O Casamento do Meu Ex" (The Romantics, 2010) ou "Vestida para Casar" (27 Dresses, 2008), ou mesmo a própria noiva histérica com em "Noivas em Guerra" (Bride Wars, 2009). Já na outra ponta, em minha humilde opinião, estão a maior possibilidade de roteiros indo desde adolescentes que não assumem seus amores em "10 Coisas que Eu Odeio em Você" (Ten things I hate About You, 1999, com o saudoso Heath Ledger); solteironas encalhadas como "O Diário de Bridget Jones " (Bridget Jones Diary, 2001); recém-divorciadas no muito bem elaborado "Novidades no Amor" (The Rebound, 2009); e até divorciadas maduras em "Alguém Tem Que Ceder" (Something Gotta Give, 2003) e o maravilhoso "Simplesmente Complicado" (It´s Complicated, 2009) com atuação brilhante de nossa eterna musa Meryl Streep.


Ultimamente a bola da vez é o sexo casual feminino e a produção independente de filhos, que ganhou status em Sex and The City, a série que virou filme em 2008. Neste mote temos, entre outros, os hilários " Amizade Colorida" (Friends with Benefits, 2011) e "Coincidências do Amor" (The Switch, 2010). Alguns roteiros também tentaram explorar o lado masculino da conquista como "Hitch - Conselheiro Amoroso" (Hitch, 2005), "Larry Crowne - O Amor Está de Volta" (Larry Crowne, 2011) e o caricato "Do Que as Mulheres Gostam" (What Women Want, 2000).


Sim, a mulher real mudou de posto desde o início do gênero ganhando posições de comando, assumindo as rédeas de sua vida e não se casando com o primeiro pretendente e isso é mostrado nestes filmes. Utilizar da capacidade de se colocar na situação e rir de si mesmo é uma das melhores características humanas e é bem explorado pelas comédias, tornando a vida mais alegre. A mensagem romântica implícita geralmente é que a busca pelo príncipe encantado ideal continua presente, mesmo que inconscientemente, em todas as mulheres. Para finalizar, e dar o tom de conto de fada, normalmente há uma forcinha extra para que o casal protagonista fique junto no último momento. Suspiro aliviado daquelas que acreditam que o mundo só precisa de amor. Aliás, se este texto tivesse trilha sonora, certamente eu indicaria All You Need is Love (Beatles). Só para garantir...


Texto de Cassy Fenga

quinta-feira, 5 de abril de 2012

The Runaways - Uma Conversa com Tony Monteiro


Não é novidade para ninguém que milita no meio: em um ambiente predominantemente masculino (e até mesmo machista) do rock, bandas com integrantes mulheres sempre se deram bem. Quer um exemplo? Quase ninguém se lembra que Janis Joplin era a vocalista da banda Big Brother & The Holding Company. Para a maior parte das pessoas, essa era simplesmente sua banda de apoio, tal a atenção que ela despertava.

Assim, foi um furor quando, no começo da década de 1970, surgiu nos EUA uma banda formada apenas por meninas de 16 e 17 anos de idade que faziam um tipo de música que figurava entre o rock and roll, o hard rock e o ainda embrionário punk rock. A história da banda The Runaways, que dá vida ao filme homônimo, foi escrita com ajuda do produtor, compositor, radialista, agitador cultural e maluco de plantão chamado Kim Fowley (que ainda nos dias de hoje pode ser visto por Los Angeles andando com o auxílio de uma bengala e com os cabelos pintados de verde), que descobriu o talento até então adormecido em Cherie Currie (vocais) e Joan Jett (guitarra). A propósito, a atuação de Michael Shannon no filme transmite muito bem esse perfil “alucinado sem limites” de Kim.

Com direção da italiana Floria Sigismondi, essa é a estréia da diretora em longas metragens e talvez por isso ele se apresente de maneira parecida com a banda: bastante crua e direta. Floria já dirigiu vídeo clipes para Sheryl Crow, David Bowie e Marilyn Manson e essa experiência anterior fica evidente em cenas como o primeiro show da banda, onde a câmera opera em constantes travellings e cortes rápidos em close, num clima que remete a shows recentes de bandas como U2.

A história das cinco garotas poderia tranquilamente servir de base para qualquer obra baseada em "ascenção-e-queda" e por ser um filme "chapa branca" (baseado num livro de memórias de Cherie e com produção executiva de Joan), até que poucas situações foram amenizadas, como o homossexualismo da guitarrista, que é tratado de forma bem velada. A personagem de Lita Ford, mostrada antes de tudo como uma loira burra, também evidencia que ainda há coisas a se resolver entre elas.


As atuações de Dakota Fanning (Cherie) e Kristen Stewart (Joan) chamam a atenção, pois por mais sutis que sejam as cenas de sexo entre elas, absolutamente pesadas são as de uso de entorpecentes. Neste ponto é interessante ver como a pequena de Guerra dos Mundos e a eterna Bella da Saga Crepúsculo evoluíram como profissionais, pois encarar papéis nada exemplares é algo difícil e perigoso para atrizes em ascensão.

Historicamente The Runaways acabou sendo uma enorme inspiração para tantas e tantas bandas femininas (ou com mulheres na formação), como The Go-Go's, L7, The Donnas e até o Hole da incorrigível Courtney Love. Joan Jett pode ser considerada a mais bem-sucedida das cinco integrantes da formação clássica da banda, pois com sua banda The Blackhearts lançou clássicos como I Love Rock'n'Roll e I Hate Myself For Loving You.

Já Lita Ford (guitarra) partiu para o heavy metal/hard rock, entrou num período sabático e voltou recentemente à cena com um disco que a crítica amou odiar. Cherie Curry prosseguiu como cantora, se aventurou como atriz e hoje, além dessas duas atividades, também se especializou numa maluquice chamada escultura em madeira com serra elétrica. Jackie Fox (baixo) se afastou da música, trabalhou como fotógrafa, advogada e escreveu um livro de ficção ainda inédito. Curiosamente, Jackie simplesmente não autorizou que seu nome fosse usado no filme, forçando os realizadores a criarem uma personagem fictícia chamada Robin. Já a baterista Sandy West continuou no mundo da música dando aulas de bateria e mantendo seu próprio grupo, o Sandy West Band. Em outubro de 2006, ela perdeu a batalha contra um câncer de pulmão e morreu aos 47 anos.

Para os amantes do velho e bom rock n’ roll, a trilha do filme é sensacional e bem aplicada ao contexto das cenas. Um exemplo é a primeira transa entre a Cherie e Joan marcada por I Wanna be Your Dog, dos The Stooges, que juntamente da lente desfocada da câmera transmite o clima de entorpecimento e descobertas na vida das personagens.

É difícil saber para quem esse filme é indicado! Se ele foi realizado para os antigos e novos fãs da banda, se ele é o tipo de filme para ser visto entre pais e filhos adolescentes no auge de suas descobertas e afirmações, ou então se o filme é para aqueles que gostam da sétima arte, não importado o gênero da obra.

Tecnicamente a obra é bastante simples, as atuações são aceitáveis e a única licença poética se resume ao momento em que Cherie deixa um estúdio onde a banda gravava seu derradeiro álbum. Ao abrir a porta e deixar a luz estourar o primeiro plano, a protagonista remete a ação à busca por redenção e ajuda psicológica.

No fundo, o mais importante neste filme é a história da banda em si e como em pouco tempo quatro jovens garotas foram do paraíso ao inferno sem, entretanto, perder sua grande importância e representatividade na história do rock.


Um abraço e até a próxima!


Por Eligio W. Junior e Antônio (Tony) Carlos Monteiro.
Revisão de Cassiana Fabbrini.