sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O Hobbit - Uma Jornada Inesperada


Escrever sobre O Hobbit - Uma Jornada Inesperada sem deixar os sentimentos e emoção de um fã tomar conta deste texto é algo extremamente difícil e doloroso. Isso sem mencionar que uma tola tentativa possivelmente geraria um produto final apático e destemperado.

Por tais motivos resolvi redigir esta conversa simplesmente como um fã, como um ser que mantém Tolkien na prateleira mais alta de seu repertório literário, que viajou até outro lado do mundo para conhecer a Terra Média – por muitos chamada de Nova Zelândia, ou Aotearoa para os nativos maoris - e que se emocionou ao assistir o excelente trabalho de Peter Jackson e sua trupe, em mais uma jornada a um universo tão querido e amado.

Logo nos primeiros minutos de projeção compreendi a visão revolucionária de Peter quando decidiu por filmar em 48 quadros por segundo, causando curiosidade e apreensão na imprensa e espectadores. Para quem que se perguntou “quarenta e oito o que?”, faço aqui uma breve explicação: a resolução tradicional de um filme é de 24 quadros por segundo, ou seja, 24 imagens projetadas por segundo que fornecem a noção de movimento. Portanto, a inovação de Jackson faz com que a resolução de O Hobbit seja o dobro de uma resolução comum, algo até então desconhecido aos amantes da sétimas arte.

Considerações técnicas à parte, os 48 quadros realmente proporcionam um imagem tão perfeita e viva, que dá a impressão de estarmos assistindo a um blu-ray em uma tela gigante de altíssima definição. O receio que a imprensa possuía sobre o filme ter realmente cara de cinema, ou aparência de Discovery HD Theather se dissipa passados menos de cinco minutos dos créditos iniciais, pois Jackson demonstra que além de não ter “perdido a mão” após O Senhor dos Anéis, também aprendeu a fazer um filme 3D estereoscópico – filmado com câmeras verdadeiramente 3D, sem conversões posteriores - da melhor qualidade, onde poucos são os elementos que “saem” da tela em direção aos olhos impressionáveis e muitos são os planos trabalhados de forma a proporcionar sensação de profundidade ao expectador, como as sequências iniciais dentro da casa de Bilbo.

A escolha do casting foi certeira e Martin Freeman (da série Sherlock) entrega um Bilbo engraçado, leal e valente que os fãs conhecem dos livros. Mesmo criando a personagem à sua maneira, Freeman em alguns momentos se faz remeter a Ian Holm (o Bilbo anterior de O Senhor dos Anéis) agradando também ao público da primeira trilogia.

Andy Serkis - que desta vez trabalhou como assistente de direção - nos presenteou com mais uma atuação intensa e seu Gollum já deixa saudades!

Ian McKellen conseguiu trazer ao set um Gandalf mais renovado e ainda melhor. Como ele faz isso?


Para não deixar o texto ainda mais longo, ao invés de citar todos 13 anões darei foco somente ao Rei Thorin Escudo de Carvalho, belamente vivido por Richard Armitage (Capitão América, O Primeiro Vingador). Quem já leu o livro me compreenderá quando digo que Armitage conseguiu de maneira muito tranquila dar vida ao Thorin sábio, sem meias palavras, guerreiro e focado em um antigo sonho: destruir o dragão Smaug, recuperar todo o ouro por ele roubado e fazer ressurgir a imponente cidade de Erebor. O Thorin do cinema é bastante fiel à imagem que eu imaginava do Thorin de Tolkien e neste ponto Peter Jackson merece mais uma vez aplausos, pois conseguiu extrair ótimas atuações de todos os 13 anões, algo bastante difícil até mesmo para os diretores mais renomados da atualidade. Apesar de tempos de exibição diferentes entre cada personagem, sempre que vemos um dos 13 na tela nos divertimos e neles acreditamos.

As locações, a fotografia, os figurinos, os efeitos digitais e a trilha dispensam comentários, pela perfeição já esperada daqueles acostumados com os feitos da primeira trilogia. Ainda sim, vale ressaltar como o avanço tecnológico da computação gráfica continua forte e primoroso! Assim como em Avatar, não é possível distinguir em O Hobbit, qual personagem é digital e qual é real, coberto de maquiagem e próteses.

Por fim, as intersecções entre O Hobbit e O Senhor dos Anéis escritas por Jackson, sua esposa Fran Walsh e Philippa Boyes são um deleite para muitos e obviamente uma ofensa para os mais puritanos.

Mas o filme possui falhas?
Assim como a grande maioria, O Hobbit também é falho e além das alterações na história original já citadas, o timming não é tão perfeito. Particularmente não tive problemas com isso, mas ouvi algumas pessoas dizendo que sentiram sono em determinados momentos, algo comum desde A Sociedade do Anel. Entretanto, esses pormenores em nada desmerecem aquele que possivelmente foi o melhor filme de 2012.

Para os que já assistiram façam como eu e assistam novamente! Para os ainda curiosos, não deixem de aproveitar das quase três horas de uma fantástica e inesperada jornada =)


Um forte abraço e um ótimo 2013!

Texto de Eligio W. Junior



segunda-feira, 22 de outubro de 2012

TED: Um ursinho de pouca pelúcia e muita erva


No mundo da animação digital primeiro veio Gollum de Senhor dos Anéis. Depois o símio César (interpretado pelo mesmo Andy Serkis) e em seguida a evolução em forma de ursinho “fofinho” chamado Ted.
Seth MacFarlane - diretor e criador de Family Guy (Uma Família da Pesada) - resolveu dar um passo além dos desenhos politicamente incorretos e dirigir uma comédia live action (com atores reais) de humor negro desbocado, que ganhou todas as telonas do mundo.
No Brasil se tentou tirar o filme de circulação a partir dos apelos do deputado Protógenes Queiroz, mas felizmente prevaleceu o bom senso e o respeito ao direito de expressão. Vale a pena lembrar que tal episódio só fez crescer a arrecadação nas bilheterias brasileiras, gerando um efeito contrário ao desejado pelo deputado.

Ted é uma história sobre crescimento desenvolvida principalmente para os adolescentes da década de 1980 que, assim como eu, hoje estão na casa dos trinta. Seu enredo nos leva a um dia de Natal, onde o jovem John Bennett faz um desejo para seu ursinho de pelúcia (que na língua inglesa é conhecido com o teddy bear) ganhe vida e esteja sempre ao seu lado. Demonstrando a inteligência de sempre, MacFarlane explica a transformação como algo plausível e nada bizarro, fortalecendo ainda mais a empatia inicial do público com Ted que, a propósito, foi interpretado pelo próprio diretor através da captura de movimentos por computador.
Quando o desejo de John se torna realidade, Ted vira uma celebridade mundial sendo inclusive entrevistado por Johnny Carson, no seu famoso talk show da década de 1970. Entretanto, a fama é efêmera e como lembra a narração de Patrick Stewart (o professor Xavier da primeira trilogia dos X-Men), Ted seguiu o exemplo de Corey Feldman (famoso ator teen dos clássicos de “Sessão da Tarde” como Gremlins, Os Goonies, Conta Comigo e Garotos Perdidos) e caiu nos ostracismo deixando de ser uma celebridade, para ser tornar apenas um SHIT!

Apesar de ter um roteiro original e diálogos afiados, o filme apresenta problemas como a má utilização de Mila Kunis (recém eleita mulher mais sexy do mundo) que não passou de uma namorada vilã criadora de um drama rasa, além da subtrama envolvendo Giovanni Ribisi como um pai assustador e antigo admirador de Ted, que insiste em comprá-lo para seu sinistro e obeso filho. Em contrapartida, Mark Wahlberg surpreende em sua quase meia-idade ainda fumando bongs e assistindo Flash Gordon com seu igualmente irresponsável amigo urso.

A arma secreta de MacFarlane é que Ted realmente convence ao fazer parte de nossa realidade e despertar nossas crianças interiores (quem não gostaria de voltar a ser jovem e ter um amigo para farrear o tempo todo?) na mesma intensidade em que mantém o caos R-Rated de situações absurdas, como um brinquedo “inocente” fazendo sexo dentro de um supermercado. 
 
Ted é mais do que uma seqüência interminável de piadas ridículas acerca de um ursinho de pelúcia com síndrome de Pinóquio. O filme é na realidade uma reminiscência de Peter Griffin (personagem protagonista de Family Guy) e Peter Pan, sendo tão envolvente quanto inteligente, engraçado e também ridículo, mas surpreendentemente uma das melhores comédias do ano!


Até a próxima!

Texto de Alex Heilborn

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Gladiador - Uma Fanstástica Jornada do SPQR aos Campos Elíseos


O Império Romano...
Aquele que de 44 AC a 476 DC conquistou diversos países, se desdobrou em diversos Estados, praticamente dominou a Europa, parte da África e Ásia e até hoje vive na imaginação da humanidade e sua arte.

Apenas aqueles que já estiveram em Roma e andaram por suas antigas ruínas conseguem entender, respirar e imaginar como foi a vida naquele lugar onde a glória, o poder e o derramamento de sangue andavam lado a lado.

Em 2000 eu assisti Gladiador pela primeira vez e lembro em ter passado meses pensando naquele filme. Doze anos se passaram e lá estava eu dentro do Coliseu de Vespasiano e Tito, imaginando que Maximus Decimus Meridius ali "perseverou, lutou, venceu e padeceu".

 

Ok, ok, eu sei que era apenas um filme, porém a fidelidade histórica, arquitetônica e política usada por Ridley Scott faz deste um dos maiores épicos da história do cinema!

O belíssimo roteiro de David Franzoni consegue contrapor os momentos de batalhas e vitórias, com os de profunda dor e desgraça vividos pelo protagonista, cujo único pecado foi ser fiel ao seu Caesar, ao seu exército e a sua amada família.

Maximus é o retrato perfeito daquele que destrói por cegamente acreditar na glória de Roma. Por acreditar em um ideal onde a atual capital italiana era a luz, em meio a um mundo dominado pelas trevas. Este general não lutava por ser vil, ou por interesses pessoais e por isso foi visto por seu líder supremo (Marcus Aurelius), como o sucessor natural ao trono do império.

É aí onde entra Commodus que mata seu pai para usurpar o trono e envia o respeitado general para uma sofrida jornada. A vilania do filho do Caesar é uma clara alusão aos inúmeros episódios de sucessões imperiais criminosas que corromperam Roma, especialmente no período de seu declínio. Na história real Commodus (ou Marcus Aurelius Commodus Antoninus Augustus) foi o filho legítimo de Aurelius e seu sucessor no trono de Roma, até ser assassinado por aqueles que queriam seu lugar no poder. Outro fator interessante é que Commodus constantemente se passava por gladiador e lutava contra estes sendo, obviamente, vitorioso em todas as lutas que a propósito, nunca acabavam em morte.


Mas voltado à sétima arte, nesta obra até a trilha de Hans Zimmer emociona e encanta. Tudo bem que o tema principal é praticamente um plágio do tema de Vangelis em 1492 A Conquista do Paraíso, filme também dirigido por Ridley. Seria esse um sinal, ou um alvará para o plágio?

Zimmer raramente faz algo 100% original, mas o que importa é que, ao menos em Gladiador, os deuses conspiraram a favor deste ex-tecladista de bandas oitentistas, que acertou a mão com uma música que envolve o espectador e no momento exato da história, consegue arrancar desse algumas lágrimas emocionadas diante do destino daquele “general que virou escravo. O escravo que virou gladiador. O gladiador que desafiou o imperador”.

Por falar em desafios, Ridley Scott possuía vários neste projeto, como as locações áridas e quentes no Marrocos e Ilha de Malta; a dependência em efeitos digitais para recriar a Roma esplêndida; atores chaves relativamente novatos como Djimon Hounsou (Juba) e Ralf Moeller (Hagen); além da inconstante carreira deste brilhante diretor inglês, que proporcionou ao mundo obras-primas como AlienO Oitavo Passageiro, Blade Runner, A Lenda e o Gângaster, ao mesmo tempo em que dirigiu tremendas porcarias como Cruzada e Robin Hood (tão subproduto de Gladiador que até o mesmo corte de cabelo se manteve no protagonista).


Ainda sim, Ridley cumpriu o papel de regente que um bom diretor de cinema deve exercer e nos entregou uma história tão crível, que até hoje consegue ultrapassar os limiares da ficção e nos fazer questionar se aquilo tudo realmente foi mera ficção, ou realidade!


Caminhando para o final desta conversa, rendo palmas, aliás, muitas palmas para Russell Crowe! Da sua preparação para o papel (o ator pegou tão pesado na malhação e machucou o ombro de tal forma, que precisou operá-lo alguns anos depois) à angustiante cena em que seu personagem encontra sua esposa e filhos queimados vivos, Crowe prova porque mereceu o Oscar de melhor ator, além das indicações de Melhor Ator Coadjuvante no ano anterior (O Informante) e Melhor Ator no ano seguinte (Uma Mente Brilhante).

A atuação do australiano nascido na Nova Zelândia é enérgica, porém sensata e contida. Através do olhar o ator consegue transmitir o ódio e a ardente sede por vingança, com a mesma facilidade que demonstra afeto, tristeza e dor. É impossível não "comprar" Crowe como um general inteligente, vencedor, bondoso e dotado de um enorme bom-senso, o que me faz acreditar que jamais existiria um Maximus Decimus Meridius sem um Russell Crowe, na mesma proporção que jamais existiria um Jack Sparrow sem Johnny Depp.


Antes que as trombetas toquem e as bigas comecem a luta, encerro afirmando que Gladiador é um filme para ser visto hoje e sempre. Um filme para penetrar em nossos corações e formar nossos repertórios artísticos, intelectuais e históricos.

  

Até a próxima e Ave Caesar!

Texto de Eligio W. Junior

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Crossroads: Muito Mais Que Um Filme "Cult"


Se você é daqueles que gosta de vasculhar a história em busca de injustiças, pode colocar este filme na lista. Afinal, apesar de cultuado por muitos, Crossroads (A Encruzilhada), lançado em 1986, não atingiu o auge comercial que um filme de seu gabarito mereceria.

Os méritos do filme começam com seu enredo, que é baseado numa "lenda real". Tentando explicar a contradição, o bluesman americano Robert Johnson viveu de 1911 a 1938, quando morreu em circunstâncias até hoje não esclarecidas – teria sido esfaqueado numa briga ou envenenado pelo marido revoltado de uma moçoila com quem se engraçara. Também muito se fala/falou num pacto que ele teria feito com o diabo quando ainda era adolescente. Ele teria se encontrado com o capeta numa encruzilhada numa fazenda em que se plantava milho no Mississippi e trocado sua alma pelo sucesso no blues. Com pacto ou não, o fato é que Robert se tornou uma verdadeira lenda do gênero, mesmo tendo escrito apenas 29 músicas em sua vida. E é aí que entra o mote do nosso filme: existe uma outra lenda, muito propagada, que dá conta que existe uma 30ª. música de Robert Johnson nunca encontrada até hoje.
Corte rápido.

Cá estamos na década de 80 e o roteirista John Fusco (que anos depois, mais precisamente em 2002, seria indicado ao Oscar pelo roteiro da animação O Corcel Indomável) resolveu pegar essa lenda e escrever uma história saborosíssima. Eugene Martone (interpretado com brilhantismo por Ralph Macchio, o eterno Karatê Kid) é um jovem aluno de violão clássico mas também fanático por blues – e essa dualidade gera algumas das situações mais divertidas do filme, como a audição em que ele finaliza a Marcha Turca, de Mozart, com uma frase típica de blues, para fúria de seu professor, que se revolta com a "música primitiva" (em suas palavras) que seu pupilo adora.


Em meio a essa aparente contradição, Eugene descobre que num "asilo/prisão" na cidade em que mora está recluso Willie Brown, também conhecido como Blind Dog Fulton (interpretação magistral do saudoso Joe Seneca), gaitista que tocara com Johnson nos anos 30. Ele procura o bluesman atrás da 30ª. música e como resposta recebe uma proposta: seu Eugene tirá-lo de lá e levá-lo a um determinado lugar do Mississippi, onde tinha "assuntos a resolver", mostraria a ele a tal 30ª. música.

A partir daí, os dois se envolvem numa viagem repleta de erros (mais) e acertos (menos) envolta em humor, drama, aventura e até romance – protagonizado pela lindinha Frances (Jami Gertz), que lá pelas tantas se enrosca com Eugene.

No fim das contas, Willie confessa que não existia 30ª. música coisa nenhuma e que ele queria, mesmo, era desfazer um pacto que ele próprio também tinha feito com o diabo numa encruzilhada do Mississippi. Começa aí a parte mais divertida do filme, em que Eugene acaba duelando na guitarra com Jack Butler (interpretado pelo famoso guitarrista Steve Vai) para definir o destino da dupla: se Eugene ganhar, Willie está livre de seu compromisso; se perder, sua alma também passa a pertencer ao "pé preto".

Esse enredo, por si só saboroso, é desenvolvido com maestria pelo diretor Walter Hill, que se cercou dos mínimos detalhes para que tudo parecesse o mais real possível. O início do filme, em que Robert Johnson é retratado gravando sua primeira música, chega a ser emocionante pelo realismo. Macchio, por sua vez, recebeu aulas de dois treinadores, um de blues e outro de música clássica, para aprender as músicas que interpretaria no filme. As gravações não foram feitas por ele, mas quem toca identifica que sua digitação no braço do instrumento está absolutamente correta.


E se nada do que o filme mostra tivesse valor, sua trilha sonora seria um primor por si só. Escrita, arranjada e produzida pelo grande guitarrista e compositor Ry Cooder, ela faz um apanhado geral do blues do Mississippi e, graças à participação de Steve Vai, se aproxima do heavy metal na hora em que o bicho pega e ele tem que enfrentar Eugene. Steve escreveu e gravou as guitarras do duelo e chegou a reproduzir essa música ao vivo, como aconteceu aqui mesmo no Brasil. Um detalhe interessante: a nota que desfecha o duelo é impossível de se atingir na guitarra, tanto que no filme ela é "empurrada" por um teclado. Mas nada que tire o brilho de Crossroads.


Pra terminar, o filme ainda traz algumas frases simplesmente brilhantes, daquelas que só um roteirista privilegiado conseguiria forjar. Há vários exemplos disso, todas faladas pelo sábio Willie Brown. No começo, quando ele tenta negar que se trata de Blind Dog Fulton e é interpelado por Eugene que o flagrou tocando gaita, explica: "De onde eu venho, se você não toca gaita, não come ninguém." Mais adiante, Eugene descobre que Willie não é deficiente físico e que usava uma cadeira de rodas motorizada por comodismo. Aí, ouve do mestre: "Um homem não é um homem sem um carro..." E, para finalizar, uma das falas mais especiais da história do cinema acontece quando Frances segue seu destino e abandona Eugene. Willie serve a ele uma dose de uísque vagabundo e vaticina: "O blues nada mais é do que a história de um homem bom sentindo-se mal por causa de uma mulher com quem um dia ele esteve."


Texto de Tony Monteiro

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Frank Castle: Uma saga frustrada para se tornar popular na tela grande


Baseado nos quadrinhos criados por Gerry Conway, Ross Andru e John Romita, Frank Castle apareceu pela primeira vez como coadjuvante em 1974, no gibi The Amazing Spider-Man nº 129.

Mais de uma década depois - mais especificamente em 1989 – a New Line em parceria com a Marvel Comics, que ainda não era um poderoso estúdio, convocou Dolph Lundgren para ser Castle, um ex-policial que vive nos esgotos e atua como juiz, júri e executor de criminosos da cidade, em retaliação pelos assassinatos impunes de sua esposa e filhos.


Esta versão do Justiceiro é muito diferente da filmada em 2004, sendo muito mais escura e incrivelmente mais fiel ao ritmo dos quadrinhos. Lundgren desempenhou bem o papel nesta primeira encarnação do personagem e foi muito mais imponente, com melhor presença física. Mesmo não sendo um grande ator - algo que o papel sinceramente não requisitava - ele desenvolveu seu Frank Castle de forma mais sombria - lembrando mais a versão Bruce Wayne da trilogia atual de Christopher Nolan – do que a atuação eficiente, mas nada fiel de Thomas Jane.

O fator que mais desagradou os fãs na época, além da falta de um vilão dos quadrinhos, foi a caveira não ter aparecido em seu colete ou camiseta. De qualquer forma, o filme se tornou uma das adaptações de HQS mais Cult e foi até melhor sucedida que a versão seguinte.

Já em 2004, a Marvel Studios dava seus primeiro passos para se tornar a força imponente que é hoje e seguindo a trilha de Demolidor de Mark Steven Johnson (com Ben Affleck e Jennifer Garner) e Homem- Aranha de Sam Raimi (com Tobey Maguire, Willem Dafoe, Kirsten Dunst e James Franco) trouxe novamente o policial Frank Castle, agora ex-militar dado como morto por criminosos, cuja família foi exterminada e após isso se torna o anti-herói conhecido como o Justiceiro.


Esta segunda versão definitivamente tinha a essência do torturado Frank, porém deixou a desejar no fator sombrio e violento mostrado antes. A atuação neste filme foi além do esperado e o trabalho de Thomas Jane foi bem recebido. John Travolta, apesar de um pouco irritante com seu vilão - que tentava ser sinistro, cruel e ao mesmo amoroso com sua família - conseguiu chamar a atenção da mídia para um filme de baixo orçamento, que se deu bem nas bilheterias do mundo todo. Um bom filme e não apenas uma adaptação de um super-herói como ventilava a crítica da época.


Quatro anos depois chega a aguardada sequência O Justiceiro: Em Zona de Guerra e a mesma novamente decepciona os fãs!

Jane abandonou o projeto por não aceitar as imposições do já gigante Marvel Studios e foi tentar viver Jonah Hex - aliás, um filme tão horroroso que sequer merece comentário. No seu lugar entrou Ray Stevenson (Roma e Thor) que persegue uma família da máfia e se vinga de todo mundo, exceto Billy Russoti o executor de crimes oficial da família italiana.


A violência "exagerada" e a encarnação inspirada pela The Punisher MAX Series - escrita por Garth Ennis - não foram bem aceitas pelo público e crítica, entretanto essa foi uma grande homenagem da jovem diretora e ex-campeã de caratê Lexi Alexander (Hooligans), ao famoso Justiceiro da The Punisher War Journal, além de também uma homenagem à versão de 1989.

Esta versão Frank Castle de Lexi beira a insanidade e isso se prova na sequência onde o “mocinho” entra em uma mansão e mata a todos com requintes de crueldade, no melhor estilo Jason ou Michael Myers, deixando a cereja do bolo – Russoti – fugir para um galpão até ser encontrado e atirado dentro de um triturador de garrafas. Russoti não morre e ali nasce o famoso vilão Retalho, ou Jigsaw no original, lembrando a origem do Coringa no Batman de Tim Burton em 1989. 


Infelizmente o filme se perde em uma salada absurda, com drama, comédia e muita falta de noção. Ainda sim ele é atualmente a melhor adaptação das três em minha opinião!


Hoje a Marvel está cogitando a realização de uma série televisiva que mostrará as aventuras do personagem mais justiceiro dos quadrinhos e caso esse projeto realmente ocorra, estaremos na torcida para que de uma vez por todas, os donos da casa de ideias retratem o Castle que todo fã há anos sonha em ver nas telas.


Um abraço e até mais!

Texto de: Alex Heilborn

terça-feira, 28 de agosto de 2012

TOMMY: A Viagem de Townshend e Russell

 
 
Faz mais de quarenta anos – para ser exato, foi em 1968 – que a mente absurdamente privilegiada de Pete Townshend, guitarrista do The Who, forjou a história de um garoto que fica cego, surdo e mudo, transforma-se num messias moderno e acaba sucumbindo ao castelo de areia que ajudou a criar.
 
Tommy tem um enredo rebuscado e, por vezes, non sense – mas nada que se compare a outra obra-prima de Townshend que também virou filme, Quadrophenia, uma maluquice quase impenetrável que narra a saga de um sujeito com quatro personalidades!
 
Tommy conta a história de um piloto da força aérea britânica, Capitão Walker, que está feliz com a esposa Nora até ser convocado para a II Guerra Mundial. É dado como desaparecido em combate e sua esposa dá à luz a um menino sem pai – Tommy. Nora cai na conversa do malandrão Frank Hobbs e se enrosca com ele, mas o capitão não havia morrido e volta para reivindicar seu lugar na cama. Na briga, Frank mata o capitão e Tommy vê tudo. Traumatizado, torna-se um garoto cego, surdo e mudo, fazendo seus pais começarem uma peregrinação em busca de sua cura – apesar de um relativo e irônico desinteresse de Frank.
 
A peregrinação do casal e de Tommy, seu talento para jogar fliperama mesmo com suas deficiências, sua cura e transformação numa espécie de guru, culminando com sua derrocada, serviram de base para mais de vinte músicas que foram lançadas no álbum homônimo em 1969 e que é considerado o precursor das óperas-rock. Não demorou muito – seis anos, para ser exato – para que alguém tivesse a ideia de levar aquilo à telona. Coube a Ken Russell a missão de dirigir o filme, que acabaria se tornando sua principal obra.
 
 
Tommy enquanto filme é bastante datado, trazendo aquele festival de cores tão caro ao cinema dos anos 70. As interpretações também são irregulares, já que ao lado de um ótimo Oliver Reed (que interpreta Frank Hobbs) e da balzaquiana, mas maravilhosa Ann-Margret (Nora) estava o espetacular cantor do The Who Roger Daltrey (Tommy), que como ator continua sendo o espetacular cantor do The Who... O elenco de convidados impressiona. São várias as participações especiais, como Tina Turner vivendo a Rainha do Ácido (Acid Queen), Eric Clapton como o pregador de uma igreja que tem Marilyn Monroe como deusa (com direito a ponta de Arthur Brown como pastor), Keith Moon interpretando o pedófilo e engraçadíssimo tio Ernie, Elton John como O Mago do Fliperama (Pinball Wizard) e Jack Nicholson fazendo o médico que na verdade quer é faturar Nora – e recebe grande apoio da parte dela... Aliás, será que Nicholson já interpretou alguém normal em sua longa e brilhante carreira?
 
 
As limitações técnicas da época também são evidentes. Por exemplo, o uso de chroma key na cena em que Tommy se liberta e "corre sobre as águas" definitivamente não deu certo... Por outro lado, Townshend botou o dedo na ferida sem medo em questões tabu, como a já citada pedofilia, o hoje "na moda" bullying e até o incesto – a cena em que Clapton participa insinua uma relação, digamos, mais íntima entre Tommy e Nora, sendo que o refrão da música Eyesight To The Blind diz textualmente: "Você devia conhecer milnha mulher / Quando ela transa até um cego passa a enxergar". Isso motivou a censura dessa música quando o filme foi lançado nos cinemas no Brasil, em 1975. Só que o mais importante de tudo em se tratando de Pete Townshend e The Who é a música. E ela é brilhante, para se dizer o mínimo!
 
Da mesma forma que nas telas, muitos convidados compareceram para emprestar seu talento à obra de Townshend. Além de Clapton, Brown, Tina e Elton, muitos aparecem apenas na trilha sonora, como Ron Wood (recém contratado pelos Rolling Stones), Kenney Jones (baterista que futuramente viria a substituir Keith Moon no The Who), o pianista Nicky Hopkins e Tony Stevens (baixista de grupos como Foghat e Savoy Brown).
 
Tommy acabou rendendo um Globo de Ouro a Ann-Margret e duas indicações para o Oscar para Pete Townshend pela trilha sonora e novamente Ann-Margret. Mesmo com suas limitações esse é um filme que se deixa ver ainda nos dias de hoje. Já sua trilha sonora, essa é eterna.
 
 
Texto de Antônio (Tony) Carlos Monteiro.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O Besouro Verde – Como Não Fazer um Filme de Herói


Desde o ano passado eu sabia que The Green Hornet era um filme ruim e por isso não encontrei motivação para assisti-lo na época de sua estreia. Um ano se passou e infelizmente caiu em minhas mãos o bluray disc do filme e só então pude finalmente conferir que o projeto do ator, escritor e produtor Seth Rogen (Ligeiramente Grávidos) juntamente do excêntrico diretor Michel Gondry (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças) só deveria ser chamado de filme, por respeito aos cento e vinte milhões de dólares gastos no projeto!
 
Sim, “o horror, o horror” e não estou falando de Apocalipse Now, mas sim, da melhor definição de um pseudo filme de herói totalmente inverossímil, de péssimo gosto, atuações patéticas, roteiro mais confuso que o julgamento do Mensalão e “defeitos” especiais sofríveis.
Confesso que durante a primeira hora de filme, busquei incessantemente por argumentos que me fizessem acreditar que aquilo havia sido propositalmente realizado para não ser levado a sério, ou então produzido como uma sátira a exemplo de Trovão Tropical que releu comicamente Platoon, ou mesmo Em Busca do Cálice Sagrado (Monty Python) que satirizou os filmes sobre a lenda do Rei Arthur.

Sou fã deste tipo de comédia inteligente e bem feita, mas para minha decepção e choque O Besouro Verde insistia em se afirmar como um filme sério. A partir daí comecei a me questionar como um estúdio pode despejar um caminhão de dinheiro em um filme tão horroroso? Como foi aceito um roteiro onde a motivação do protagonista em se tornar um vigilante é rasa igual a uma cova? Como Jay Chou é contratado para fazer as vezes do saudoso Bruce Lee, uma vez que ele mal fala inglês e atua tão bem como minha querida avozinha? E por fim, como, meu Deus, como Cameron Diaz aceitou passar por esse papelão, às vésperas de completar quarenta anos de idade! Seria esse papel um sinal de crise de meia idade?


Nem a aparição especial não creditada de James Franco ajuda e apenas três momentos são dignos de recordação, como a engraçada briga entre Britt (Rogen) e Kato (Chou); a primeira cena onde o jovem Britt brinca com seu boneco “voador” em uma clara alusão ao Superman; e finalmente um Christoph Waltz repensando seu papel de vilão ultrapassado Chudnofsky e transformando-se em Bloodnofsky, aquele que se veste de vermelho e usa o péssimo bordão “Seja pela minha máscara, ou seja, pelo meu sangue, vermelho será a última cor que você já viu”.

Como seria redundante continuar falando mal do filme, fica aqui a minha máxima NÃO RECOMENDAÇÃO em assistir a esse projeto de blockbuster! A não ser que um dia ele esteja passando no Telecine, com a sua sogra te visitando em casa e sua esposa querendo a TV para assistir novela =)
Um abraço e até a próxima!

Texto de Eligio W. Junior

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Batman, O Cavaleiro das Trevas – Uma Jornada em Três Atos

 

Em 2005 quando um novo filme sobre Batman seria lançado pela Warner Brothers, a comunidade de fãs do Cavaleiro das Trevas permaneceu em estado de alerta e tensão. E não era para menos, uma vez que os amantes dos quadrinhos haviam sofrido e muito com os filmes anteriores, especialmente aqueles dirigidos por Joel Schumacher (quem não se lembra das bizarrices como um Batman loiro e armaduras com peitinhos?).

Particularmente sou fã de carteirinha de Tim Burton e adoro os dois primeiros filmes (Batman de 1989 e Batman Returns de 1992), mas a verdade é que ninguém sabia o que “esse tal de Christopher Nolan” mostraria neste filme, que seria um reboot de toda a franquia. E eis que para a alegria de muitos Nolan foi além de todas as expectativas e iniciou uma das melhores sagas do cinema recente.
Como já comentado por caras como o Érico Borgo e Marcelo Forlani, é impossível falar sobre cada um dos três filmes (Batman Begins, Batman The Dark Knight, Batman The Dark Knight Rises) separadamente, uma vez que ao término da projeção da última película nós entendemos que todos fazem parte de algo maior. Parte de um único filme grandioso, com um começo, meio e fim muito bem definidos, onde as pontas soltas só existem de maneira proposital, para viabilizar futuros projetos da Warner em torno deste tão querido e obscuro personagem.


A partir desta constatação decidi prestar uma homenagem singela ao grande mestre Christopher Nolan, separando abaixo cinco dos mais importantes fundamentos deste incrível diretor.

  • Desde Begins Nolan foi inteligente em escolher atores e atrizes de peso para participar desta franquia. Como vemos nos extras do primeiro filme, sempre foi grande a preocupação do diretor em trazer ao set figuras ilustres e competentes, que pudessem proporcionar personagens verossímeis tanto para o espectador comum, quanto aos fãs das HQs. Vale também ressaltar o excelente trabalho realizado pelos roteiristas Jonathan Nolan, David S. Goyer e claro, o próprio Christopher.
  • Dentro do “Nolanverse” não existe espaço para vilões caricatos e pouco ameaçadores.
    Os ótimos textos sempre deixam espaços para os necessários alívios cômicos, porém os vilões são verdadeiros vilões e o ótimo casting imprime na película um sábio e respeitável Ra’s Al Ghul (vivido por Liam Neeson), um Espantalho (Cillian Murphy) real e demente, um Coringa (Heath Leadger) que deixa qualquer espectador perturbado e por fim, um Bane (Tom Hardy) que convence a todos como a personificação do mal puro. Creio que apenas Marion Cotillard e Ken Watanabe (Talia Al Ghul e Ra’s Al Ghul respectivamente) foram mal utilizados nos papéis que desempenharam, visto a tremenda capacidade de atuações que ambos possuem.
  
  • Também dentro deste universo de Nolan o fantasioso se aproxima mais do real, com um Batmóvel que existe de verdade, além de várias outras coisas como a capa do morcego e seu uniforme (ambos de tecnologia militar americana). O diretor que se diz pouco fã de efeitos digitais, ou os chamados CGIs, sempre que pode filma tudo ao vivo e por isso vemos explosões e perseguições tão reais e vívidas, pois no fundo elas realmente são para valer!
  • Pela primeira vez um diretor se preocupou em realmente entender a psique do Cavaleiro das Trevas e não dar apenas a sua versão do que deveria ser Batman. Nolan que não abriu mão de produzir um cinema mais autoral  (onde as mãos de ferro dos produtores oferecem mais espaço para o diretor criar como deseja)  conseguiu unir sua visão de artista, aos vários argumentos e construções psicológicas criadas previamente por gênios dos quadrinhos como Bob Kane, Frank Miller, Alan Moore e Jeph Loeb. Por isso vemos muitas passagens que nos remetem diretamente a cenas de clássicos como Batman Ano Um, A Piada Mortal, O Cavaleiro das Trevas, Um Longo dia das Bruxas, A Queda do Morcego, entre outros.
  • Christopher se manteve fiel à estética e tecnologia que acredita ser a melhor nos dias atuais e por isso filmou os três “episódios” em película ao invés de digital, obrigando inclusive que seus respectivos traillers fossem lançados em película. Foi a paixão pela maneira mais antiga de se fazer cinema que levou o diretor a abrir mão de uma infinidade de fundos verdes (para os CGIs), a construir cenários do tamanho de pequenos bairros e a utilizar as películas IMAX para potencializar o poder de sua obra.
Confesso que após tantas entrevistas assistidas e lidas, tenho minhas dúvidas se Nolan realmente pensou em Batman como uma trilogia desde seu início. Entretanto, acredito que conforme o sucesso surgiu e mais dinheiro foi disponibilizado pelos estúdios, este elegante inglês construiu algo que muitos tentaram e fracassaram: uma trilogia perfeita e encantadora. 


Sim, existem falhas nos filmes (como a muito simplificada queda de Bane, ou os fracos argumentos dados à Talia em busca de sua vingança), mas por se tratar de arte e não uma ciência exata, o mago Nolan conseguiu agradar gregos (leia-se público geral) e troianos (fãs dos quadrinhos) com três filmes sóbrios, competentes e que já deixam muitas saudades em todos aqueles que gritavam aos quatro ventos “IN NOLAN WE TRUST”.


Um abraço e até a próxima!

Texto de Eligio W. Junior

terça-feira, 12 de junho de 2012

New York, New York


A mais populosa cidade norte-americana fundada em 1624 e dividida em cinco setores – Bronx, Brooklyn, Manhattan, Queens e Staten Island – exerce grande fascínio não só aos turistas mundo afora, como também ao cinema mundial.

Desde o início da Indústria de Cinema Hollywoodiana foram muitos os filmes realizados na cidade e sobre a cidade. Filmes inclusive criados por grandes gênios naturais da Big Apple, como Martin Scorsese, Woody Allen, J. J. Abrams, Mel Brooks, Stanley Kubrick e Oliver Stone, que declararam sua paixão pela cidade do Central Park; pela cidade da liberdade e justiça, multicultural e multicolorida; pela cidade “atacada” por King Kong e, tristemente, por Bin Laden.
Apesar do alto custo de se filmar por lá – despesas amenizadas com os recentes incentivos do prefeito Michael Bloomberg, como isenção de taxas para filmar em locais públicos – ainda hoje é possível assistir a novas produções, que exploram a inesgotável fonte de inspiração existente em Nova Iorque, lugar onde as relações humanas parecem, ao menos na sétima arte, ocorrer com maior intensidade.
Escolhemos dois filmes estilo "colcha de retalhos" para ilustrar este post de homenagem. Tais longas são formados por vários curtas-metragem que interligados, ou não, navegam sob um mesmo tema.
O primeiro deles é Nova York, Eu te Amo de 2009. Um elenco de peso, diretores competentes e belos textos sustentam uma grande declaração de amor a esta poética cidade. A intenção ali é falar sobre o amor, sem amarras a uma única verdade, ou situação.


Através das curtas histórias vemos o amor pela cidade como na narrativa do casal que se “conhece” na porta de um restaurante, felizes por estarem no lugar onde é possível fumar do lado de fora de um estabelecimento e conversar com um perfeito estranho. Vemos também o amor através das décadas no engraçado curta estrelado por Eli Wallach (o Don Altobello de O Poderoso Chefão) e Cloris Leachman (Espanglês), além da busca pelo grande amor no curta onde um escritor tenta seduzir a prostituta. Podemos ainda mencionar o amor platônico do pintor que não se acha merecedor do amor de sua musa inspiradora, o amor por estudar a vida humana e seus desembaraços - que é o caso da "cineasta" que acompanha algumas histórias no longa – e por fim, o amor pela paixão louca e irracional do casal vivido por Bradley Cooper (Se Beber Não Case) e Drea de Matteo (Desperate Housewives).



A propósito, este último merece muitas palmas, pois toda jornada do casal é fundamentada em solilóquios. Não existe sequer uma fala entre as duas personagens e o espectador acompanha a viagem dentro da mente de cada protagonista, através de uma fotografia de tons sombrios, imagens que apresentam ruídos, além de uma trilha pesada e depressiva, formando assim o curta mais criativo do filme.


O segundo filme elencado é Noite de Ano Novo (2011) de Gary Marshall, mesmo diretor de Uma Linda Mulher. Marshall, que já tinha apostado em algo parecido usando Los Angeles de fundo (Idas e Vindas do Amor, 2010), traz nesta nova obra uma história mais festiva, cheia de cores, mais comercial e clichê, no melhor estilo "everything is gonna be alright".


Como o próprio título sugere, a narrativa gira em torno do dia 31 de dezembro de várias personagens, navegando por histórias que não são bem aquilo que parecem ser. O plot é a festa da virada e a descida da Bola na Times Square. Lá encontramos o cara que odeia o Ano Novo, a dona de buffet que vai servir na festa mais badalada (e a equipe deslumbrada), alguém que precisa chegar a tempo na cidade e não existe como (tudo está lotado), a menina que quer ir à festa e a mãe não deixa, o velho que à beira da morte e só deseja assistir a descida da bola, o casal que vai ter seu filho e a mulher que vai ter que trabalhar no dia 31, mesmo já tendo avisado que sairia de férias.
É interessante ver como o elenco de apoio - a mãe, a vizinha, a enfermeira, o entregador, o cantor, entre outros - acaba tomando seu lugar na história de forma muito bem articulada e surpreendente. As histórias realmente se entrelaçam e saem do lugar comum. As personagens apresentam seus problemas, escancaram os sentimentos humanos que tentamos esconder e se redimem, porque afinal é noite de reveillon e só existe espaço para aquilo que é bom (pelo menos em tese).
 
O discurso que Hilary Swank usa para explicar porque a bola está parada na metade (o que seria uma falha causada por um curto-circuito) é uma grande sacada do texto que nos coloca a rever tudo que fizemos até ali e resolvermos o que precisa ser resolvido: perdoar, amar, renovar as esperança, etc. O bacana é que cada um desses sentimentos cabe em uma história. Para a personagem dela própria: perdão ao pai; para a enfermeira cujo marido está na guerra: esperança do reencontro; para a ex-funcionária tímida que quer por sua lista de desejos em prática: fé; para o casal que disputava o prêmio pago ao primeiro bebê nascido no novo ano: compaixão; e claro amor em várias formas e idades.

 Tudo com sabor de festa, de fogos de artifícios, boa música e companhia. Mesmo em cenas mais densas como na morte de uma das personagens, o filme tem uma boa resposta como a celebração à vida (cena em que Hilary Swank vai ao berçário conhecer os bebês que nasceram na virada do ano).  E é isso que se espera de NY, certo?


Com isso terminamos nossa singela homenagem a essa secular e encantadora cidade, ao som do velho e bom Sinatra =)

Um abraço e até a próxima.

 
Texto de Eligio W. Junior e Cassiana Fabbrini.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Documentário The Love We Make




Perto de completar minha primeira década de vida, eu descobri que por este mundo havia passado uma banda inglesa, infelizmente encerrada uma década antes do meu nascimento. Trocadilhos a parte, os “besouros” de Liverpool foram os responsáveis por abrir minhas portas da percepção para o mundo do rock n’ roll e depois de ganhar meu primeiro álbum - Please Please Me gravado em fita cassete e comprado por meu pai no extinto Mappin – não pude evitar que os Beatles passassem a ocupar um lugar especial no meu coração.

Dito isso, foi com grande alegria que aceitei a sugestão do grande Tony Monteiro em escrever sobre a lenda viva Paul McCartney, através do documentário The Love We Make de 2011.

Minhas primeiras impressões se prendem ao bom humor e simpatia que Paul demonstra durante seu “dia-a-dia” de gravações. Mesmo após anos de entrevistas ele continua cômico ao doar seu tempo para esse tipo de situação, além de bastante paciente e receptivo a solicitações de autógrafos, algo muito evidenciado no passeio pelas ruas de Nova Iorque.

 
Durante esta caminhada ocorre um fato inusitado que se torna praticamente um alívio cômico, onde um imigrante da República Dominicana pede para Paul autografar seu passaporte. Aliás, o filme é repleto destas cenas de cotidiano que reforçam a estética e enquadramento documental dos diretores Bradley Kaplan e Albert Maysles.

Por falar em estética, a opção por filmar em P&B cheio de ruídos, desfoques, zooms e câmera solta é bastante interessante, porém em momentos onde o filme se utiliza de material de entrevista fornecido pelos veículos midiáticos norte-americanos, ou então das filmagens oficiais do show final, essa interessante estética é agredida. Sei que a linguagem documental permite este tipo de montagem, mas em minha humilde opinião seria melhor manter a estética original o tempo todo, a cortar do documental para o material colorido captado por terceiros.


O segundo ato é um pouco arrastado, especialmente nas cenas em torno dos ensaios de Yesterday e a pré-produção do show The Concert for New York City, plot do documentário.

Já o terceiro e último ato mostra a influência que o ex beatle ainda exerce no mundo, uma vez que sua música Freedom encerra o show. Vale também lembrar as várias visitas de famosos ansiosos por trocar duas, ou três palavras com o músico. Talvez seja por isso que em meio ao seu discurso, Jim Carey tenha parafraseado uma canção de Paul dizendo que o amor que se recebe é igual ao amor que se doa - the love you take is equal to the love you make – de onde claramente surgiu o nome do filme em questão.

Em uma da entrevistas Paul afirma que é importante se manter "um homem do povo”, sem melindres em ser simpático e dar autógrafos, algo que segundo ele próprio, fez questão de ensinar a seus filhos. Alguns poderão afirmar que isso não passa de propaganda artística, mas eu prefiro acreditar que essa é uma das grandes virtudes deste típico inglês.

De maneira geral The Love We Make é uma sutil e bonita homenagem aos vários bombeiros mortos durante e após o 11 de Setembro. Homenagem essa que vai ao encontro da persona pacata e sensata deste filho de um ex-bombeiro, Sir Paul McCartney.


Um abraço e até a próxima =)

Texto de Eligio W. Junior.